Desgosto nacional
Por Júlia Neves *
(7º período -
jornalismo UNI-BH)
ju_jneves@yahoo.com.br
Segunda semana
de março: um bebê foi abandonado dentro de uma caixa de
papelão na
BR-277, no município de Palmeira (PR). A
polícia investiga a placa do carro que deixou o bebê na
estrada. A criança foi resgatada por funcionários de uma
borracharia que também encontraram um bilhete da mãe, em
que ela explicava não ter condições de criá-lo.
Quarta semana
de março: um recém-nascido, ainda ligado ao cordão
umbilical e à placenta, foi encontrado dentro de um saco
plástico e abandonado próximo a um depósito de lixo de São
Bento do Una, no
Agreste de Pernambuco. Ninguém sabe ainda quem são os
pais. O menino de 3,7 quilos e 53 centímetros recebe os
cuidados e os carinhos das médicas e enfermeiras do
Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip),
no Recife.
Esses são
apenas os casos noticiados. Quantos mais existem? Será que
para alegria dessas mães desnaturadas e sem piedade, bebês
abandonados realmente se afogaram no fundo de mares e
lagoas, se sufocaram em caixas e sacos plásticos e
morreram de fome, frio ou adversidades em matagais e nos
lixões? Não sabemos.
Em alguns sites e fóruns de
discussão na Internet, mulheres oferecem o serviço de
barriga de aluguel. Algumas grávidas também tentam vender
os filhos que ainda não nasceram. Falta de vergonha na
cara ou ignorância sobre os processos de adoção? Falta uma
distribuição de renda mais igualitária e justa que permita
que estas pessoas possam garantir a sobrevivência mínima
necessária e assegurar a comida até o fim do mês para,
inclusive, os possíveis outros filhos.
Os casos de
abandono pipocam na imprensa a cada dia. Parece uma
epidemia. Com isso, está muito em voga a expressão
“distúrbio psicológico”. Mas na hora de procurar culpados,
o Brasil se estrepa. Falta educação cultural; campanhas
para o uso de preservativo e anticoncepcional; uma
política do governo ostensiva, franca e objetiva para o
planejamento familiar, mostrando para estes inconseqüentes
noções de custos, riscos e responsabilidades com uma
criança. Assim, com a certeza de que todos estarão cientes
destas informações, o Estado poderá adotar uma postura
punitiva contra estes pais e mães “psicologicamente
afetados”.
A verdade é que estamos todos
abandonados, uma vez que aquilo que é de responsabilidade
dos governantes não está sendo feito. Preocupados com o
próprio bem-estar e caixa dois, os políticos parecem
apenas se importar em defender seus castelos escondidos.
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* Júlia Neves é
atriz e estudante do 7º período de jornalismo no
Centro Universitário de Belo Horizonte.
Adora internet, cinema,
fotografia, música, televisão e literatura. É
demasiado curiosa e não dispensa a combinação de
uma boa comida e vinho tinto. |