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Crônica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Lembranças

Por Matheus Laboissière *
(7º período - jornalismo UNI-BH)
matheusbigode@hotmail.com

Não posso acreditar. Por que tu, logo tu, me deixaste? E aquelas palavras proferidas à demasia? Mais parecem cinzas, pó, passado... Não posso acreditar. Caminho sem rumo pela rua negra. Minha vida segue. Acredito que a tua também. Sinto-me estranho. Como se estivesse adentrado meus próprios e embriagados devaneios. Cada imagem que chega a meus nervos ópticos parece modificada. Não somente fora invertida pelo cérebro. Começo a enxergar tuas estórias. Caminho pelas sinapses de minha memória. Trajetos que somente me levam a ti. Cada imagem me faz lembrar de ti.

Recordar-te, por exemplo, daquela saudosa tarde sob uma árvore da qual já não me lembro qual fruto dava luz? Só tinha olhos para as tuas duas jabuticabas. É incrível como uma árvore, idêntica como aquela, pudesse estar ali, agora, à minha frente.

Recorda-te, por exemplo, daquele carpete no qual nos deitamos em outra não menos importante tarde? Sim, aquela em que nos beijamos ardentemente. Não podes esquecer-te dela. Se tenhas guardado alguma coisa, faço votos de que seja aquela tarde. Foi um sonho para mim, se queres saber. Aqueles lábios não saíram mais de meus sonhos, quiçá de minha realidade. Já distante, infelizmente. Transformada em lenda por tua causa.

Recorda-te, por exemplo, quando viestes à minha casa provar de minha hospitalidade? Mesa farta à qual tivemos direito não é mesmo? Carnes dos mais variados naipes e espécimes. Frutas exóticas as quais nem mesmo eu pudera identificar. Melhor mesmo fora quando caminhastes até meu recinto. Até minhas emoções. Desejos, anseios, quimeras. Inclusive, realizastes todas as minhas.

Recorda-te, por exemplo, daquela noite na qual fostes comigo à casa de meu melhor amigo? Defino aquela ocasião como confusa. Aliás, toda tua estória pode ser resumida com essa palavra. Logo que deixastes o aconchego da casa de meu amigo, o mesmo me indagara como era possível que não estivéssemos juntos. Nem mesmo eu tinha respostas àquela pergunta tão sombria.

Recorda-te, por exemplo, de quando me conheceste? Uma vez, à casa de minha avó, confessaras que me achava um chato. Vistes como não esqueci uma só palavra que proferistes? Um só movimento que provocastes? Muita coisa mudou quando daquele dia não é mesmo? Lembro-me como se fosse hoje. Uma pena que acho que tu não te lembras de muita coisa. Parece-me que esquecestes de tudo. Será mesmo que vivemos tudo isso? Não poderia ter me deixado enganar por meus próprios pensamentos, não mesmo!

Não posso me esquecer também das vezes que fui preterido por ti. Das inúmeras situações nas quais me vi frustrado e confuso por tua culpa. Ficava obcecado por tua pessoa. Por tuas caricias. Já me acostumara. Um vício do qual não queria me livrar. Porém, nossa confusa estória foi chegando às considerações finais. Não por minha culpa, evidente. Tua culpa! Cada vez frustrando-me mais. Destruindo meu próprio ser por tua causa. Não poderia mais viver àquela maneira. Estava sufocado por tuas negativas. Só tinha prazer ao fechar meus olhos e imaginar-me contigo, em meus braços. Aos poucos, tudo fora ficando embaçado, sem nitidez.

Tudo se transformara em cinza. Consegui guardar um pouco destas lembranças. Estas mesmas memórias que, aposto, tu jogastes ao relento. Mas, ainda assim, quero dizer-te uma coisa: foi importante passar todos estes meses contigo. Aprendi muito com tua pessoa. Aprendi a me valorizar. Aprendi a não envolver-me demais. Aprendi a amar primeiro a mim, depois, quiçá, a ti. Mesmo que te esforces para esquecer esses momentos, não conseguirás. Mesmo que não admitas, tenho convicção de que fora importante para tua estória. Se fosses especial como eu, aproveitarias mais minha pessoa. Mas não és perfeita como eu. As próprias ruas de tua vida se encarregaram de dar-te consciência.

Agora, deixa-me continuar meu caminho pelas ruas não mais desertas e escuras. Tenho a mim. É o que mais importa. Deixa-me caminhar sem rumo. Mas agora sem povoar minhas sinapses com estas já distantes lembranças. Fazes o mesmo. Deixe-as registradas nestas palavras. Construa teus caminhos como fizera eu. Viva tua vida. Que eu viverei a minha.

 


* Matheus Laboissière é estudante do 7º período de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte. Interessa-se por política, economia e esportes. Escreve para o site www.revistasf.com