Não posso acreditar. Por que tu, logo tu, me
deixaste? E aquelas palavras proferidas à demasia?
Mais parecem cinzas, pó, passado... Não posso
acreditar. Caminho sem rumo pela rua negra. Minha vida
segue. Acredito que a tua também. Sinto-me estranho.
Como se estivesse adentrado meus próprios e
embriagados devaneios. Cada imagem que chega a meus
nervos ópticos parece modificada. Não somente fora
invertida pelo cérebro. Começo a enxergar tuas
estórias. Caminho pelas sinapses de minha memória.
Trajetos que somente me levam a ti. Cada imagem me faz
lembrar de ti.
Recordar-te, por exemplo, daquela saudosa tarde sob
uma árvore da qual já não me lembro qual fruto dava
luz? Só tinha olhos para as tuas duas jabuticabas. É
incrível como uma árvore, idêntica como aquela,
pudesse estar ali, agora, à minha frente.
Recorda-te, por exemplo, daquele carpete no qual nos
deitamos em outra não menos importante tarde? Sim,
aquela em que nos beijamos ardentemente. Não podes
esquecer-te dela. Se tenhas guardado alguma coisa,
faço votos de que seja aquela tarde. Foi um sonho para
mim, se queres saber. Aqueles lábios não saíram mais
de meus sonhos, quiçá de minha realidade. Já distante,
infelizmente. Transformada em lenda por tua causa.
Recorda-te, por exemplo, quando viestes à minha casa
provar de minha hospitalidade? Mesa farta à qual
tivemos direito não é mesmo? Carnes dos mais variados
naipes e espécimes. Frutas exóticas as quais nem mesmo
eu pudera identificar. Melhor mesmo fora quando
caminhastes até meu recinto. Até minhas emoções.
Desejos, anseios, quimeras. Inclusive, realizastes
todas as minhas.
Recorda-te, por exemplo, daquela noite na qual fostes
comigo à casa de meu melhor amigo? Defino aquela
ocasião como confusa. Aliás, toda tua estória pode
ser resumida com essa palavra. Logo que deixastes o
aconchego da casa de meu amigo, o mesmo me indagara
como era possível que não estivéssemos juntos. Nem
mesmo eu tinha respostas àquela pergunta tão sombria.
Recorda-te, por exemplo, de quando me conheceste? Uma
vez, à casa de minha avó, confessaras que me achava um
chato. Vistes como não esqueci uma só palavra que
proferistes? Um só movimento que provocastes? Muita
coisa mudou quando daquele dia não é mesmo? Lembro-me
como se fosse hoje. Uma pena que acho que tu não te
lembras de muita coisa. Parece-me que esquecestes de
tudo. Será mesmo que vivemos tudo isso? Não poderia
ter me deixado enganar por meus próprios pensamentos,
não mesmo!
Não posso me esquecer também das vezes que fui
preterido por ti. Das inúmeras situações nas quais me
vi frustrado e confuso por tua culpa. Ficava obcecado
por tua pessoa. Por tuas caricias. Já me acostumara.
Um vício do qual não queria me livrar. Porém, nossa
confusa estória foi chegando às considerações finais.
Não por minha culpa, evidente. Tua culpa! Cada vez
frustrando-me mais. Destruindo meu próprio ser por tua
causa. Não poderia mais viver àquela maneira. Estava
sufocado por tuas negativas. Só tinha prazer ao fechar
meus olhos e imaginar-me contigo, em meus braços. Aos
poucos, tudo fora ficando embaçado, sem nitidez.
Tudo se transformara em cinza. Consegui guardar um
pouco destas lembranças. Estas mesmas memórias que,
aposto, tu jogastes ao relento. Mas, ainda assim, quero
dizer-te uma coisa: foi importante passar todos estes
meses contigo. Aprendi muito com tua pessoa. Aprendi
a me valorizar. Aprendi a não envolver-me demais.
Aprendi a amar primeiro a mim, depois, quiçá, a ti.
Mesmo que te esforces para esquecer esses momentos,
não conseguirás. Mesmo que não admitas, tenho
convicção de que fora importante para tua estória.
Se fosses especial como eu, aproveitarias mais minha
pessoa. Mas não és perfeita como eu. As próprias ruas
de tua vida se encarregaram de dar-te consciência.
Agora, deixa-me continuar meu caminho pelas ruas não
mais desertas e escuras. Tenho a mim. É o que mais
importa. Deixa-me caminhar sem rumo. Mas agora sem
povoar minhas sinapses com estas já distantes
lembranças. Fazes o mesmo. Deixe-as registradas nestas
palavras. Construa teus caminhos como fizera eu. Viva
tua vida. Que eu viverei a minha.
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* Matheus Laboissière é estudante do 7º período de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte. Interessa-se por política, economia e esportes. Escreve para o site www.revistasf.com
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