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Uma dura jornada

Por Junia Teixeira *
(7º período - jornalismo UNI-BH)
juniat.eva@gmail.com

Ainda somos um país de miseráveis. Falta habitação, emprego, alimento, educação e, para muitos brasileiros, tudo isso junto. O Fantástico – programa da Rede Globo, exibido no dia 29 de março – mostrou a situação de escolas rurais de cidades do interior do Estado de Goiás. Crianças assentadas em cadeiras improvisadas acompanham a aula que acontece debaixo de uma tenda de palha, em quadro negro que mais parece lixo de tão torto e rasgado. Na mesma tenda, outra turma divide o espaço com estes alunos, sem paredes para amenizar o barulho e as interferências das vozes durante as aulas. A aprendizagem é prejudicada, claro.

Mas o pior é aceitar que esses alunos estão na escola, principalmente, pela merenda, que chega depois de um percurso tão infeliz quanto o dessas crianças. Não há estradas. As trilhas são as mesmas feitas por escravos fugidos há mais de cem anos. Pedras, rios, buracos, enchente, total precariedade num caminho de poucos quilômetros que consome horas para a realização do trajeto. Homens a cavalo precisam terminar a caminhada. Comida em bruacas e uma cavalgada de alguns dias para levar o lanche às escolas. Quando chegam, a alegria é geral. De barriga cheia é mais fácil aprender.

Absurdo. Não só a necessidade pela alimentação escolar, mas a falta absoluta de condições para fazer chegar essa merenda. Como é possível falar em desenvolvimento se há crianças que caminham mais de uma hora para conseguir comer uma porção de arroz-doce, farofa, galinhada ou o que estiver sendo preparado nas cantinas das escolas? Como sonhar com índices de aprendizagem equiparados aos países de desenvolvidos se há cidades com mais de 50% de pessoas analfabetas? Como elogiar Enem, Prouni, criação de novas Universidades públicas ou cotas raciais se não há aula para muitas crianças quando falta a merenda?

Não é só a merenda que chega com dificuldades. O desenvolvimento também. E não é preciso ir tão longe, como no interior de Goiás. Os problemas ocasionados pelas chuvas de março impediram o transporte escolar em cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, e obrigaram mães e filhos a fazer uma caminhada de até três horas para chegarem à escola. Nas grandes cidades, é a violência que invade estas instituições e aterroriza estudantes e professores, à mercê da falta de segurança. É inaceitável. São pequenos brasileiros que já enfrentam grandes obstáculos.

Heróis são os pais dessas crianças que encaram o medo e a precariedade, matriculam seus filhos e incentivam a continuidade dos estudos. Heróis são os professores que conhecem os problemas destes brasileiros, mas não desistem e continuam a sonhar com horizontes mais amplos. Herói são os tropeiros do interior de Goiás que cavalgam dias para levar um pouco de vida e sorte até lugares abandonados pelo poder público.

Infelizmente, vivemos em um grande país que condena suas crianças a trocarem meia dúzia de palavras e letras por um punhado de comida.


* Junia Teixeira é estudante do 7º período de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte. Tem especial interesse por fotografia, arte e cultura.   É professora de arte e fotografia e realiza  pesquisas sobre comunicação imagética e artística.