Ainda somos um país de miseráveis.
Falta habitação, emprego, alimento, educação e, para
muitos brasileiros, tudo isso junto. O Fantástico –
programa da Rede Globo, exibido no dia 29 de março –
mostrou a situação de escolas rurais de cidades do
interior do Estado de Goiás. Crianças assentadas em
cadeiras improvisadas acompanham a aula que acontece
debaixo de uma tenda de palha, em quadro negro que
mais parece lixo de tão torto e rasgado. Na mesma
tenda, outra turma divide o espaço com estes alunos,
sem paredes para amenizar o barulho e as
interferências das vozes durante as aulas. A
aprendizagem é prejudicada, claro.
Mas o pior é aceitar que esses alunos estão na escola,
principalmente, pela merenda, que chega depois de um
percurso tão infeliz quanto o dessas crianças. Não há
estradas. As trilhas são as mesmas feitas por escravos
fugidos há mais de cem anos. Pedras, rios, buracos,
enchente, total precariedade num caminho de poucos
quilômetros que consome horas para a realização do
trajeto. Homens a cavalo precisam terminar a
caminhada. Comida em bruacas e uma cavalgada de alguns
dias para levar o lanche às escolas. Quando chegam, a
alegria é geral. De barriga cheia é mais fácil
aprender.
Absurdo. Não só a necessidade pela alimentação
escolar, mas a falta absoluta de condições para fazer
chegar essa merenda. Como é possível falar em
desenvolvimento se há crianças que caminham mais de
uma hora para conseguir comer uma porção de
arroz-doce, farofa, galinhada ou o que estiver sendo
preparado nas cantinas das escolas? Como sonhar com
índices de aprendizagem equiparados aos países de
desenvolvidos se há cidades com mais de 50% de pessoas
analfabetas? Como elogiar Enem, Prouni, criação de
novas Universidades públicas ou cotas raciais se não
há aula para muitas crianças quando falta a merenda?
Não é só a merenda que chega com dificuldades. O
desenvolvimento também. E não é preciso ir tão longe,
como no interior de Goiás. Os problemas ocasionados
pelas chuvas de março impediram o transporte escolar
em cidades da região metropolitana de Belo Horizonte,
e obrigaram mães e filhos a fazer uma caminhada de até
três horas para chegarem à escola. Nas grandes
cidades, é a violência que invade estas instituições e
aterroriza estudantes e professores, à mercê da falta
de segurança. É inaceitável. São pequenos brasileiros
que já enfrentam grandes obstáculos.
Heróis são os pais dessas crianças que encaram o medo
e a precariedade, matriculam seus filhos e incentivam
a continuidade dos estudos. Heróis são os professores
que conhecem os problemas destes brasileiros, mas não
desistem e continuam a sonhar com horizontes mais
amplos. Herói são os tropeiros do interior de Goiás
que cavalgam dias para levar um pouco de vida e sorte
até lugares abandonados pelo poder público.
Infelizmente, vivemos em um grande país que condena
suas crianças a trocarem meia dúzia de palavras e
letras por um punhado de comida.
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* Junia Teixeira é estudante do 7º período de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte. Tem especial interesse por fotografia, arte e cultura. É professora de arte e fotografia e realiza pesquisas sobre comunicação imagética e artística. |

