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Crônica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Mais um ano sem ti

Por Maria Helena Dutra*
mlenadutraunibh@yahoo.com.br  

Diante da janela panorâmica daquela casinha pintada de branco, estás tu vovó Mercedes. Uma senhorinha de oitenta e quatro anos. Pequena, de cabelos encaracolados, muito branco e brilhante, sempre arrumados.

 Vejo teu jeito de sorrir, um jeito só teu. Tinhas o poder de ouvir, de acolher, de entender sem julgar, o dom da sabedoria e do amor. Tu “vozinha”, foste  muito mais que uma avó para mim. Tu foste meu colo, minha amiga, confidente,  companheira, meu exemplo e meu orgulho.

Para meu pai e minhas tias tu eras uma mãe brava, que os fazia andar na linha, com “rédea curta”.  Para mim, tu eras a “vozinha’, contadora de histórias maravilhosas que não estavam em nenhum livro. Eram lembranças de tua infância em Vila Rica, da tua vinda para Belo Horizonte. Amava ouvir tuas memórias, tuas esperanças e teus sonhos. Tinhas uma lucidez invejável. Sempre informada e atual. E a política? Tua conversa preferida. Tu não cansavas  de contar  do teu médico: “ Ah, Dr. Juscelino curou minha perna, agora posso caminhar e cuidar do meu jardim. Até as flores estão agradecidas, rezo por ele todos os dias”. Perdi a conta de quantas vezes ouvi essa história. O orgulho teu era  aquele jardim.

As lembranças que tenho de ti são de um tempo  tão feliz! Sinto o cheiro da tua casa, do teu talco, e tuas roupas sempre tão clarinhas, que me passavam limpeza. E aquela caixa redonda em cima do teu guarda-roupa, não me sai da memória. Que segredo tu guardavas ali?

Querida “vozinha”, e aquelas quitandas? Broa de fubá com queijo, biscoitos de polvilho preparadas com teus segredos no fogão a lenha. No final das tardes de domingo, todos ali reunidos à mesa da tua cozinha, ouvindo o cantarolar dos passarinhos, que vinham das árvores do teu quintal. Era tão aconchegante.

Em uma das últimas conversas que tivemos, tu lamentavas o fato de teus filhos não irem mais tanto a tua casa. Com o tempo, as visitas deles se limitavam a datas festivas. Talvez achassem que tu passarias muitos natais e muitos dias das mães ainda juntos.

Através da vidraça, teu olhar distante procura algo do outro lado da rua. Curiosa e admirada com aquela cena pergunto:

_ “Vozinha ”... Que tu vês? Quem esperas?

Ontem, me deparei. Eu frente à tua janela. E parei para pensar. Não tenho mais tu “vozinha ” querida, junto de mim. Mas teu carinho está no meu coração.

 

* Maria Helena Dutra é estudante do 7º período de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte.