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Crítica Livro Angu de Sangue

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O fubá do angu

Por Rodrigo Lamounier *
(7º período - jornalismo UNI-BH)
rlamounieracademico@hotmail.com 

 

A fragilidade de “de repente nos tornarmos fubá”, desse Angu de sangue que Marcelino Freire retrata nosso cotidiano em seu novo livro, é o que mais nos perturba como leitores e coadjuvantes dessa sociedade.  

Lançado no ano 2000, pela Ateliê Editorial, Angu de Sangue foi o terceiro livro do pernambucano Marcelino Freire, antes AcRústico, 1995, e eraOdito, 1998. O livro foi ilustrado com fotografias do artista plástico pernambucano Jobalo. A direção de arte de Silvana Zandomeni foi a segunda com o autor.

O sentido que o livro nos dá é formado por 17 contos. Cada  um dos contos parece estar ilustrando um retrato do nosso mundo. Nos identificamos com o livro a cada novo conto que lemos.

Freire ilustra cada um desses retratos com liberdade e sensibilidade. A forma como o autor repete, corta, muda e rima as palavras constrói a narrativa mais próxima à realidade do personagem. É o próprio personagem que narra o seu drama. Ao falar, o personagem relata  o que está acontecendo ao mesmo tempo que reflete os acontecimentos passados da sua vida, suas questões morais e seus desejos. Com isso, ao fim dos contos, sentimos a sensação de conhecermos a fundo a personalidade de cada um deles. A forma como o autor escreve traz intimidade entre o personagem e o leitor.

“Angu de sangue”, o conto que dá título ao livro, é um dos exemplos em que podemos verificar essa qualidade do autor. Em meio à história de um assalto na cidade de São Paulo, a vítima, que acabou de matar sua namorada, narra simultaneamente o assalto que está acontecendo, as brigas passadas do seu relacionamento, o arrependimento, sua própria personalidade, que a namorada não aceitava, a briga que levou à sua morte, e encerra encontrando o tempo e os acontecimentos do conto. É fantástico.

Além do mundo próximo que o livro retrata, o autor também demonstra as diferenças que o nosso contexto permite alterar as interpretações. “Muribeca”, o conto da personagem que reivindica o direito de morar no lixão, nos mostra o quanto podemos ver o mundo de forma diferente. “É a vida da gente o lixão. E por que é que querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho?” A moral presente no argumento da personagem relata a batalha de uma mãe que defende os interesses dos seus filhos como toda mãe. Mas do nosso ponto de vista é bom morar no lixão?

O amor, abordado de forma mágica, também é tema dos contos. “Os casais”, é um dos contos que consegue ilustrar um amor tão sincero e devoto na felicidade do companheiro, que chega a nos apresentar uma mulher cega. As vontades reprimidas da esposa vão se justificando na felicidade do companheiro. É um conto mágico, esteticamente diferente dos novos padrões. Mas é indiscutivelmente uma história de amor.

São várias as formas de nos encontrarmos e de nos perdermos por essas histórias. De possivelmente nos encarnar em algum desses personagens. O corpo que o camburão deixa no lixão, a puta que a família recrimina, a morte repentina no assalto no sinal, ou até a paixão volúpia da viúva pelo menino no velório do seu marido. O livro é, em suma, um exercício que melhora a forma como olhamos o nosso mundo.


* Rodrigo Lamounier é estudante do 7º período de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte. Interessa-se por música brasileira, jornalismo científico e agricultura orgânica.