Reconhecer Joâo
O estilo único do cantor e compositor mineiro
Rodrigo LamounierA voz identifica o cantor, mas nem sempre quem escreveu a música. Identificar o compositor requer sempre uma intimidade entre ouvinte e artista. Para alguns, mais intimidade, para outros, menos. Porque alguns deixam em sua obra características singulares. Detalhes que num emaranhado de vontade, artistas a constroem como elo que uni obra e criador. Criando um universo passível de distorções, que talvez, artista e obra viverão distantes.
Nascido em Ponte Nova, no dia 13 de julho de 1943, João Bosco de Freitas Mucci cantou desde os 4 anos nas missas da paróquia. Montou seu primeiro conjunto de rock aos 12 anos e aos 16 mudou-se para Ouro Preto onde cursou o ensino técnico e Engenharia pela UFOP. Vivendo entre a música e os estudos, conheceu também em Ouro Preto o poeta Vinicius de Morais, que, quando João lhe mostrou algumas músicas escutou de Vinicius: O que está esperando para virar artista?
Sua primeira música gravada, Agnos Sei, fez parte do disco de bolso do jornal “O Pasquim”, supervisionado por Ziraldo e pelo compositor Sérgio Ricardo, dividido com ninguém menos que Tom Jobim. A história que está registrada na biografia de João Bosco, por, Sérgio Ricardo, mostra como o mineiro surpreendia músicos já consagrados. “Depois do disco pronto, Tom Jobim pediu para ouvir o outro lado. Depois de uma grande pausa, olhou pra mim e disse: Ô Sergio, você está querendo me derrubar! Cobriu o João de elogios. Rimos muito, ainda sem saber que aquele seria um disco histórico, pois lançava Aguas de Março, considerada posteriormente como a música do século e a descoberta de "um tal de João Bosco".”
Suas canções também foram gravadas e eternizadas em diversos nomes da MPB. Elis Regina gravou varias de suas canções, entre elas “Bala com Bala”, “O Mestre Sala dos Mares”, “Dois pra Lá, Dois pra Cá” e “Caça à Raposa”. Todas se tornando grandes sucessos. Zizi Posse gravou “Corsário” e “Jade”, o lado mais romântico do compositor. Foram tantas gravações que em 2003 a Lumiar lançou o “Song Book João Bosco”. Idealizado e produzido por Amir Chediak (já falecido), o livro traz as músicas cifradas para guitarra e violão, biografia, fotos e 123 canções interpretadas por diversas gerações, desde Cauby Peixoto até Rosa Passos.
João Bosco não parou por aí. Sua trajetória artística passa por diversos nomes e épocas da música brasileira. Cantou com os grandes nomes da música da década de 70, 80, 90 e hoje, no terceiro milênio, ainda grava com as revelações da nossa música brasileira e internacional. Hoje o cantor está a todo vapor. Participando dos grandes festivais de música do mundo ainda aparece tocando com revelações recentes. Duas perolas que podem ser conferidas no site do YouTube são as gravações com o bandolinista Hamilton de Holanda e com o violonista Yamandu Costa.
Os temas que aparecem nas suas músicas vão desde crônicas do cotidiano, passando pelo amor e a religião. Na sua primeira gravação, “Agnos Sei”, João narra uma procissão num ritmo tenso e repetitivo. A letra completa o cenário. “Faces sob o sol, os olhos na cruz, os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã... Ahh, como é difícil tornar-se herói, só quem tentou sabe como dói, vencer satã só com orações”. Outra música, “De Frente Pro Crime” já é o oposto, numa melodia bem diferente, muito cadenciada e improvisada, esta crônica do cotidiano conta a história de um crime. Num tumulto frente ao corpo estendido no chão, até o camelô vem vender pastel e um bom churrasco de gato. Seu romantismo pode ser descrito na letra de “Corsário” ritmo que o artista canta de forma limpa e requintada. Mesmo que mande em garrafas mensagens por todo o mar, meu coração tropical partirá esse gelo irá.
João Bosco jamais se distancia de sua obra. Seu estilo é tão singular que nem a riqueza de temas, composições e ritmos distanciam o cantor e compositor de suas músicas. Seu parceiro em diversas canções, Aldir Blanc, diz ter escolhido João Bosco por isto: “O João veio de Ouro Preto, com um repertório de músicas que, quando ouvi pela primeira vez na casa de um amigo meu, me espantou pela violência delas. Acordes muito fortes, uma linha melódica angustiada. Eu me identifiquei imediatamente com o que ouvi e pensei que, se eu tivesse que fazer um trabalho pra valer tinha que ser com esse cara.”
Linha do Tempo